30.1.07

Requisições

Se uma constante houve ao longo da primeira invasão, essa constante foram as requisições. Noutro capitulo já foi referido que o exército francês dependia de si próprio para se abastecer, mas os seus generais levavam um pouco mais longe essa directriz.
O general Loison exigiu dos monges de Alcobaça uma entrega semanal de 12 garrafas de vinho do porto, doces diversos, 3 garrafas de vinho da madeira, 6 arráteis de velas de cera, café, 2 presuntos, 6 galinhas e 3 perus, 6 dúzias de ovos, e 12 arráteis de açucar. Se conseguia comer tudo no espaço de uma semana não o sabemos.
Curioso era o caso de outro general, Thomiéres que tinha a seu cargo a fortaleza de Peniche, nessa condição exigia do mesmo mosteiro 228 móios e 6 alqueires de trigo, cevada e legumes. Mas estes abstecimentos não chegavam à guarnição, eram por ele vendidos no mercado local a preços mais baixos, garantido-lhe um escoamento do produto.
Junot pouco depois de se instalar em Lisboa, ordenou que fosse elaborada uma lista com todos os comerciantes e os seus rendimentos, após o que a cada um foi cobrada uma percentagem, servindo esse dinheiro para pagar algumas outras requisições, como sapatos para a tropa, vinho, etc. Nos primeiros meses pagaram em parte ou na totalidade aquilo de que necessitavam, depois e conforme se pode ver em documentos do arquivo histórico militar, avolumavam-se as queixas de pessoas cuja dívida não parava de crescer.
Escusado será dizer que após a derrota nada foi pago, mas a pior requisição foi a do ouro e da prata das igrejas, para a cunhagem de moedas, tendo escapado uma autêntica fortuna para França.

29.1.07

Portugal de Junho a Agosto de 1808.

Em Agosto de 1808 a situação do exército francês em Portugal não era nada favorável, a retirada das forças espanholas de volta para o seu país na sequência da revolta que aí estalara e a derrota e rendição do general Dupont em Baylén, significava que grande parte do território nacional já fugia ao seu controlo e que as comunicações com França estavam cortadas.
As fortalezas de Almeida e de Elvas tinham sido guarnecidas na esperança do restabelecimento das linhas por onde poderiam vir os tão necessitados reforços, mas o número de soldados ao dispor de Junot diminuía na proporção em que aumentavam as revoltas. Tornou-se necessário alterar todo o dispositivo estabelecido anteriormente dispersando efectivos por vários locais da costa até à Figueira da Foz para prevenir desembarques, mantendo no entanto uma forte presença em Peniche.
Em Lisboa, cerca de 10.000 soldados mal eram suficientes para conter os ímpetos da população e as patrulhas tiveram de ser reforçadas, soldado que saísse sózinho não voltava. Nem mesmo os sucessivos fuzilamentos resolviam o problema.
O corpo de exército do general Loison foi reforçado com o objectivo de fazer face às revoltas de que iam chegando conhecimento, mas no primeiro confronto para retomar o controlo da cidade do Porto onde estava a principal Junta que se opunha ao governo dos franceses, foi confrontado com resistência de populares na zona de Mesão Frio, sendo obrigado a retroceder ficando para trás a ponte de Amarante que lhe abriria o caminho. Curiosamente a 22 de Junho ao regressar à capital tem uma pequena multidão a esperá-lo pois correra o boato de que tinha sido morto nesta refrega.
Voltou-se então para o Alentejo, onde o terreno não é tão acidentado podendo progredir mais rapidamente e aplacar revoltas como as de Vila Viçosa e Beja, tendo em Évora de enfrentar um combate terrível que causou bastantes baixas de ambos os lados, isto sem contar com os fuzilamentos que se seguiram à conquista da cidade por parte dos franceses.
Mal Loison retirou na direcção de Lisboa e já outras localidades, que acolheram os sobreviventes do combate, revoltaram-se horrorizados os seus habitantes com o que lhes contavam dos saques e violações cometidas, não podendo o general deixar guarnições atrás de si por entretanto ter recebido notícias do desembarque dos ingleses em Lavos.
O Algarve era outra zona que estava perdida, a escassa presença de oficiais e soldados franceses, não era nem de perto suficiente para conter os revoltosos, sendo Olhão a primeira, muitas outras localidades lhe seguiram o exemplo.
Assim em meados de Agosto só mesmo a zona compreendida entre as Caldas da Rainha e Lisboa, estava efectivamente em posse dos franceses, cuja prioridade deixou de ser as revoltas, para passar a ser os Ingleses que avançavam rapidamente para Sul na direcção da capital, o confronto era inevitável. Junot entretanto enviara o general Delaborde para a zona de Alcobaça, onde deveria recolher informações e se possível retardar o avanço do inimigo, necessitando para tal de encontrar o terreno ideal para um confronto dessa natureza.
O antigo campo de batalha de Aljusbarrota de que lhe falaram, não era adequado às armas do século XIX, pelo que depois verificar que os ingleses vinham em sua direcção e que eram cerca de 15.000, resolveu retroceder para uma zona que atravessara havia poucos dias e que lhe parecera ideal.

28.1.07

Frei António Pacheco

Numa época onde grande parte das populações eram analfabetas, não eram os poucos jornais que existiam que constituíam grande fonte de informação. Do mesmo modo os editais régios que iam aparecendo necessitavam de alguém que os soubesse ler para a população e só um local atraía gente em número considerável.
Do alto dos seus púlpitos, os clérigos tinham autênticas tribunas de onde podiam influenciar o espírito daqueles que os escutavam. Frei António Pacheco, foi um desses homens que durante a primeira invasão soube aproveitar isso muito bem , graças aos seus dotes de oratória e podemos dizê-lo de "encenação".
Um episódio ficou inscrito para a posteridade - na sequência da derrota de Loison em Mesão Frio e a captura de alguma da sua bagagem, onde se incluíam uniformes de gala, este frade subiu ao púlpito da Sé do Porto com o sentimento que a revolta da cidade e a formação da Junta ainda eram acontecimentos muito recentes e que ainda eram muitos os que vacilavam na sua adesão à mesma, pegou então num desses uniformes e colocou-o a seu lado.
Invectivando os ânimos patrióticos, começou a bater-lhe com um pau, infelizmente não nos chegaram as palavras exactas que proferiu, apenas a reacção do povo que o escutava e que saiu da igreja aos gritos de "Morte aos Franceses", "Viva D. João" e "Fora com os Jacobinos", etc.

26.1.07

A medicina no teatro de guerra.

Recorre-se sempre às mesmas palavras para se descrever a medicina na época napoleónica, ou seja, não existiam condições de higiene e a amputação era o remédio mais prescrito - um soldado que fosse ferido em batalha, teria ainda de combater contra as infecções, perda de sangue e moscas, que resultavam na maioria das vezes em morte. Outro problema era precisamente o da evacuação de feridos, sendo essa uma tarefa que por vezes demorava dias, pelo que quem podia caminhar encarregava-se de pelos seus próprios meios de encontrar o hospital de campanha.
Os únicos analgésicos conhecidos eram o rum, brandy e um pedaço de madeira para morder. Alguns exércitos proibiam os seus homens de emitir qualquer som quando estivessem na mesa do cirurgião, que era utilizada sem qualquer limpeza. Será escusado dizer que com este tratamento as taxas de mortalidade eram elevadas.
Apesar de tudo a amputação também conduzia a uma rápida melhoria do soldado em questão, pois limpava os fragmentos da bala, de osso ou de tecidos mortos que poderiam originar graves infecções e os melhores cirurgiões sabiam que se actuassem rapidamente quando a pessoa ainda estivesse em choque depois de uma batalha, isso significaria uma menor presão sanguinea o que equivalia a uma menor perda de sangue.
Usavam-se diversos tipos de serra consoante a parte a amputar, o pior é que depois de algumas horas de corte, as lâminas ficavam rombas e não eram substituídas.
Claro que também se faziam pequenas cirurgias, se uma bala estivesse ao alcançe de um dedo era retirada, mais fundo do que isso ficava dentro do corpo. Rasgões causados por baionetas e desde que não tivessem atingido um orgão vital eram limpos e cozidos, geralmente com fio de algodão ou mais raramente com um fio muito resistente feito a partir de tendões dos animais.
Dois nomes destacaram-se neste período - Dominique Larrey em França, que inventou uma ambulância para uma evacuação mais rápida dos feridos e James Macgrigor em Inglaterra, que inventou um hospital "pré-fabricado" que acompanhava o exército em campanha. Ambos perceberam que quanto mais depressa intervissem nos ferimentos, mais possibilidades de sobrevivência teriam os homens, mas os seus pedidos para que mais carroças fossem colocadas ao serviço dos corpos médicos esbarravam na constatação de que as mesmas já eram poucas para os abastecimentos que por sua vez não podiam entrar em ruptura ou tudo o resto parava.
Tirando as feridas, as doenças que mais mortes causavam quando um exército estava em movimento eram a desinteria, o tifo, pneumonia, diarreia, tuberculose. Feridas mal curadas davam origem a gangrena, outra grande preocupação, tal como fracturas que se não sarassem bem seriam um problema.

23.1.07

O Forte de Santa Catarina, Lavos.


O desembarque em Lavos 2.

A 20 de Junho de 1808, sir Arthur Wellesley, zarpa de Cork a bordo da fragata Crocodile, antecipando-se à restante esquadra, que ainda embarcava os cerca de 10.000 homens que iriam ficar sob seu comando. Tinha um objectivo simples, encontrar um local de desembarque.
Efectuou uma primeira paragem na Corunha, onde uma junta de governo recusou o auxílio militar inglês (ainda tendo bem presente que até há pouco eram inimigos e que Gibraltar e Cádis estavam nas suas mãos), mas não recusou o ouro e as armas também oferecidos. Aconselharam-no a desembarcar em Portugal onde estalara a revolta e onde era necessário urgentemente esse auxílio dado o estado do exército.
Dirigiu-se então ao Porto, onde é recebido por D. António de Castro, Bispo da cidade e Presidente da Junta Provisional do Supremo Governo, que acolhe a sua oferta de braços abertos e se dispõe a colaborar no que fosse necessário. Sózinhos os portugueses pouco poderiam fazer contra uma investida francesa, os regimentos estavam desorganizados, poucos possuiam o uniforme quanto mais as armas, os oficiais também eram poucos e é preciso não esquecer que os melhores estavam em França ao serviço de Napoleão na Legião Portuguesa.
Carroças, gado e cereais são postos à disposição de Wellesley, bem como cavalos que não puderam ser embarcados na Irlanda, mas quanto a soldados só cerca de 1700 infantes e 200 cavaleiros se juntaram aos ingleses e ao ver o seu estado calamitoso, estes perceberam bem porquê. Organizada esta parte da sua viagem, embarcou novamente na Crocodile e já em Julho, conferencia com o almirante Cotton, comandante da esquadra que bloqueava a embocadura do rio Tejo.
O plano de operações fica estabelecido, a captura de Lisboa e do seu porto de àguas profundas onde poderia fundear uma esquadra e por onde chegariam reforços e abastecimentos era primordial, sendo assim um desembarque no Porto foi posto de lado pela longa caminhada que isso implicaria, aliado ao facto de ainda não poder dispor de todo o exército e das dificuldades com as provisões. Tornou-se necessário encontrar um local mais perto, numa costa que quanto mais para Sul, menos possibilidades oferecia.
Excepção feita a Peniche, mas o seu porto estava protegido por uma poderosa e bem guarnecida fortaleza. A solução foi finalmente fornecida pelo almirante, ao referir que em Lavos, um forte na foz do rio Mondego, estava em posse de tropas britânicas.
A 1 de Agosto inicia-se o desembarque, infelizmente o mar e apesar de se estar em pleno verão, apresentava-se com uma forte ondulação, provocando acidentes com os barcos e chegando mesmo a afundar alguns com os homens a bordo. Toda a operação se atrasou e prolongou-se até dia 5, altura em que chegou o corpo de Spencer proveniente de Cádis, levando a que fossem necessários mais três dias para ter toda a gente em terra.
No total foram necessários mais de 8 dias para que se iniciasse a marcha, Sir Arthur era um apologista de um bom comissariado que garantisse as necessidades do seu exército, mas teve que o organizar do zero, reunindo carroças e na falta de cavalos, bois para as puxarem. A maioria dos mantimentos continuariam por enquanto a serem fornecidos pela frota que o acompanharia ao largo.
A 7 de Agosto, encontrou-se em Montemor-o-Velho com Bernardim Freire, posto no comando das tropas portuguesas pela junta do Porto. Ficou decidido que se reuniriam em Leiria nos dias 11 e 12, localidade onde receberam notícias de que a divisão de Loison deixara o Alentejo e que poderia aproveitar para atacar Coimbra e assim cortar as comunicações com o Norte. Tomaram também conhecimento que a divisão de Delaborde estava em Alcobaça.
Wellesley aconselha então Bernardim Freire a ficar em Leiria e organizar melhor as seus homens, enquanto ele continuaria na rota prevista para Sul.

22.1.07

O desembarque em Lavos 1.

Os ecos da formação de uma junta governativa do reino no Porto para combater os franceses depressa chegaram a Coimbra, onde lentes e estudantes formam o Batalhão Académico que se vai distinguir particularmente ao longo da campanha peninsular. José Bonifácio de Andrade e Silva, que ensinava metalurgia foi um dos principais insurgentes e graças aos seus conhecimentos os laboratórios da universidade são utilizados para o fabrico de pólvora, que estava na sua maioria em mãos inimigas. Impulsionou igualmente o fabrico de balas e cartuchos.
Foram buscar as armas que ainda estavam no arsenal da cidade, depositadas quando fora ordenada a extinção de regimentos e milícias e distribuem-se pela população para a defesa da cidade. Entretanto dada a adesão e para que houvesse uma melhor organização, o batalhão é dividido em duas secções - uma de lentes e outra de estudantes. A ultima destas vai ter a sua primeira jornada de glória na noite de 24 para 25 de Julho de 1808.
Um grupo de cerca de 40 estudantes comandados por António Zagalo, a quem haviam outorgado o posto de sargento, sai de Coimbra em direcção da Figueira da Foz, pois no forte de Santa Catarina, que protegia a foz do rio Mondego, estava uma guarnição francesa. Pelo caminho diversos populares juntam-se aos estudantes e o seu número já devia rondar as centenas ao chegarem perto do forte, pois os franceses que nessa altura não conseguiam comunicar com Lisboa e por isso também não recebiam reabastecimentos, rendem-se aos revoltosos.
Não foi disparado um único tiro, mas é permitido que os 80 soldados retirem com armas e bagagens, na sua viajem para Sul recolhem também as guarnições da Nazaré e de S. Gião. De presença francesa nessa parte da costa, só fica a guarnição de S. Martinho que resolve entrincheirar-se e aguardar reforços.
Entretanto no forte de Santa Catarina, os estudantes hasteam a bandeira real, o que chama a atenção dos ingleses que ao largo vigiavam atentamente e vinham inclusive muitas vezes a terra, adquirir produtos frescos e tentar obter informações. Assim ao aperceberem-se dos acontecimentos enviam 300 homens e artilharia para guarnecer o forte.

Arthur Wellesley

Nascido em Dublin a 29 de Abril de 1769 (foi sempre muito susceptível quanto à sua origem irlandesa), era o quarto filho do Conde de Mornington. Estudou em Eton e na Academia Militar de Angers, em França, não se distinguindo particularmente até aos 20 anos.
Como era prática usual entre os filhos da aristocracia a quem estava destinada uma carreira militar, a 7 de Março de 1787 foi-lhe comprada uma comissão por vontade de sua mãe, no 73th foot que estava então na Índia, mas nunca se chegou a juntar ao mesmo tendo permanecido no aquartelamento e depois transitado para outros regimentos. Neste periodo era um verdadeiro playboy, chegou a ter projectos para casar, mas foi recusado pela família da noiva por não ter perspectivas de futuro.
A partir daqui a sua vida muda, especulando-se se foi este o acontecimento que o provocou, deixou de jogar e de beber e tentou melhorar as suas aptidões em ciência militar, algo que nenhuma academia ensinava, ao mesmo tempo voluntaria-se para combater. Em Abril de 1793 foi promovido a major, estando então com o 33th foot, que cinco meses depois já comandava com o posto de tenente-coronel (muitas das suas promoções continuavam a ser compradas, algo que não era incomum em Inglaterra).
Em Junho do mesmo ano embarca em Cork com destino a Ostend, tomando parte na fracassada tentativa de invasão dos Países Baixos, distiguindo-se no entanto ao proteger com o seu regimento a retirada das restantes forças britânicas, mais tarde e ainda durante esta campanha é lhe confiado o comando de uma brigada. Recordando estes acontecimentos, disse mais tarde que ao menos aprendera como as coisas não deveriam ser feitas.
Ainda com 33th foot é destacado para a Índia, onde chega a 17 de Fevereiro de 1797, reportando directamente a Lord Corwallis, coronel titular do 33th (como aristocratas de gabarito eram requisitados para outras funções, não servindo nos seus regimentos) e à época governador da colónia, posição que foi depois ocupado pelo seu irmão mais velho, o que lhe aumentou as possibilidades de progressão na carreira.
Após um período calmo, em que aproveita para ler as melhores obras disponíveis sobre estratégia militar, em 1803 comanda duas importantes expedições contra exércitos Maharatas, treinados e armados por franceses. Contando com a rapidez de manobra e com o efeito de surpresa alcançado (percorre 16 milhas em 30 horas) derrota forças superiores em Assaye e Argaum e conquista a fortaleza de Gawilghur. Por estes feitos é promovido a major general, mas renuncia à patente, regressando a casa em 1805, com a reputação e a riqueza garantidas (a atribuição de prémios de vitória renderam-lhe alguns milhares de libras e recebe igualmente a primeira menção honrosa - Knight of the Bath). O facto de o seu irmão terminar o mandato não era alheio à sua decisão, uma vez que os dois protegiam-se mutuamente.
Recomeça as suas actividades como membro do parlamento da Irlanda, primeiro como deputado, sendo depois nomeado primeiro secretário, ainda assim toma parte na também fracassada expedição a Hannôver, que Austerlitz tornara impraticável. No verão de 1807 está novamente no campo de batalha, comandando a única força inglesa que verdadeiramente combate na Dinamarca, sai vencedor em Kioge, onde 1500 dinamarqueses são feitos prisioneiros.
Promovido a tenente general em 25 de Abril, a 15 de Junho já se encontra em Cork a preparar uma nova força expedicionária, que a princípio se destinaria à América do Sul, mas que após a eclosão das revoltas na Península Ibérica é para aí desviada, vendo nisso o governo inglês uma oportunidade de ouro para fazer a guerra a Napoleão longe das suas fronteiras e que pudesse conduzir outras nações de volta ao combate.
Sendo o mais júnior dos oficiais superiores, o seu comando era temporário devendo ser sustituído por sir Harry Burrard, depois por sir Hew Dalrymple e finalmente por sir John Moore.

Tenente Coronel George Lake

As guerras proporcionam certos episódios que se não fossem trágicos, figurariam nos livros como caricatos, na Batalha da Roliça aconteceu um deles. O 29th foot (regimento de infantaria de linha inglês) tinha no seu comando o tenente coronel George Lake, um veterano das guerras da Índia tal como o próprio Arthur Wellesley e um apologista das cargas frontais com baionetas, muito audaz e corajoso em batalha.
Os seus homens não tinham essa experiência, pois este regimento havia nove anos que não entrava em acção, sendo chamado para fazer parte da expedição que acabou por desembarcar em Portugal, carecia de veteranos que entretanto se retiraram, o seu baptismo de fogo ocorreria pois em solo nacional.
No dia do confronto, 17 de Agosto 1808, Lake vestiu-se com particular esmero, o uniforme regulamentar era dispensado por muitos oficiais, ele incluido e quando questionado sobre o porquê respondeu que poderia morrer naquele dia e ao menos queria ir elegante.
O seu regimento estava incorporado com o 82nd foot na brigada de Nightingale e na primeira fase da batalha não se fala dele, pois seguiu as ordens tal como Wellesley as ditara de manhã cedo, mas após a retirada francesa da primeira posição para o Alto da Columbeira, uma quase fortaleza natural dado o seu difícil acesso, começa a sua odisseia.
Perante o cenário em causa, foi ordenado aos regimentos que progrediam ao centro, como era o caso do 29th, para disporem apenas as suas companhias ligeiras e aguardar o avanço dos flancos para que se completasse uma manobra de cerco.
A travessia das aldeias e de diversas linhas de àgua atrasaram a progressão e o coronel Lake foi o primeiro a chegar ao sopé do monte, para demonstrar porque é que ele era a pior escolha para estar no comando durante um ataque que se queria de diversão. Desejoso de fama para si e para o seu regimento, decidiu-se a avançar em linha por uma das passagens e inicialmente foi bem sucedido surpreendendo algumas unidades francesas e dando azo a que alguns suíços desertassem para o seu campo, apertando as mãos aos ingleses diziam que não os queriam combater, que eram amigos.
Mas a sua recusa obstinada em descer do cavalo faziam dele um alvo para os atiradores inimigos, que não perderam a oportunidade, atingindo-o primeiro na garganta e depois no peito. Os seus homens incapazes de no estreito espaço de que dispunham de manter a formação, receberam fogo cruzado que lhes causou muitas baixas, precedido de um contra ataque organizado pelo general Brennier que os obrigou a retroceder.
Pararam num pequeno bosque onde os franceses já não se atreveram a persegui-los, até porque entretanto chegavam outras unidades de apoio, no campo da refrega deixaram cerca de 30 prisioneiros, oficiais incluidos e cerca de 70 mortos, entre os quais figurava o seu comandante.
Para quem visita a Zambujeira dos Carros, seguindo na direcção do Alto da Columbeira e já depois de entrar numa estrada de terra batida, depara-se com um cruzamento, virando então para a direita e descendo encontra o túmulo deste infeliz Coronel, morto sem a glória que desejava, mas imortalizado pela sua acção.